Entre os games e a pista: o retorno de Earstrip

A pandemia interrompeu a agenda de shows de Caio Andrade, mas não sua produção musical. Depois de trabalhar com trilhas, temas e efeitos sonoros para games, o criador do Earstrip prepara uma fase solo que atravessa tech house, electro e progressive house.

Composição editorial com retrato de Caio Andrade, Earstrip, usando roupa preta diante de uma parede de concreto. À esquerda, grafismo escuro com sulcos de vinil e detalhes em laranja.
Caio Andrade, o Earstrip, em retrato de seu presskit. Composição editorial da 4Ü Magazine.Fotografia: acervo Earstrip. Composição gráfica: 4Ü Magazine.

Em novembro de 2019, a programação do Garden of Eden, na região da Cidade do Cabo (abre em nova aba), incluía o Earstrip. Para Caio Andrade, criador do projeto brasileiro, a apresentação fazia parte de uma fase de agenda intensa, às vezes com mais de uma data no mesmo fim de semana. Recém-mudado para São Paulo, ele havia montado um estúdio tratado acusticamente em casa. Poucos meses depois, a pandemia interrompeu os eventos. O estúdio continuava montado. A agenda que ajudava a sustentá-lo, não.

A palavra “retorno” reúne coisas diferentes: sair dos palcos, reduzir lançamentos, perder contato com o público ou deixar de criar. No caso de Earstrip, esses movimentos não aconteceram juntos. A agenda de shows foi interrompida; a produção musical continuou, embora em outras circunstâncias.

O repertório antes da interrupção

Para quem chegou agora, o nome Earstrip não começou nos vídeos de 2026. Criado por Caio Andrade, o projeto participou de Sure Thing (abre em nova aba) e Voices (abre em nova aba), gravações com Vintage Culture que têm, respectivamente, Ashibah e Ellie Ka nos vocais. Também assinou um remix oficial de Winter Sunset (abre em nova aba), de Alok e Dazzo, com Ellie Ka. Faixas do repertório receberam ainda versões de KVSH — Pop Dat Hood, de Earstrip e Hydro —, ILLUSIONIZE — Run The Trap — e Bruno Be com Zeppeliin — Voices. A Insomniac destacou em 2014 uma leitura de Party Up (abre em nova aba), de Destructo, no contexto do G-house. São créditos históricos, não parcerias anunciadas para 2026.

Quando o calendário desapareceu

A interrupção foi especialmente dura porque Caio havia investido numa nova estrutura de trabalho. Segundo seu relato, as reservas financeiras começaram a diminuir enquanto as despesas permaneciam. Ele descreve um período de abatimento e dificuldade para imaginar os próximos passos. O problema deixou de ser apenas a ausência de apresentações: era preciso encontrar outra forma de sustentar a vida profissional.

Houve ainda a perda de continuidade com parte do público. A frequência das redes caiu, e Caio percebeu um enfraquecimento do engajamento depois dos anos de pandemia. Isso não significa, porém, que o projeto tenha ficado em silêncio desde 2019.

Em 30 de abril de 2021, Pirate Snake e Earstrip lançaram Don't Stop (abre em nova aba), pela Night Service Only. Caio identifica o single como seu último lançamento antes do repertório que prepara agora. A data deixa clara uma distinção: shows, comunicação pública e lançamentos podem perder frequência sem que a criação deixe de existir.

O caminho pelo áudio dos games

Para reorganizar a vida profissional, Caio estudou game design. Buscava uma atividade em que pudesse continuar trabalhando com música e som sem depender da retomada imediata dos shows. A decisão deslocou o foco da carreira, mas não o afastou da criação. Trabalhou em projetos de jogos com direção criativa de áudio, composição de trilhas sonoras, temas musicais e criação de efeitos sonoros. É outro ambiente de produção: música e efeitos acompanham ações e acontecimentos de uma experiência interativa, em vez de uma pista de dança.

Mais tarde, Caio criou uma empresa de gamificação que mantém em atividade. A nova frente profissional não substituiu sua relação com a música. “Não parei de produzir”, resume, ao recordar o período. Em paralelo aos projetos de games, continuou compondo música eletrônica e buscando possibilidades diferentes daquelas presentes em seus sets anteriores.

Embora reúna técnicas e contextos diferentes, a experiência com games não explica automaticamente a sonoridade das novas faixas. Seu lugar nessa história é outro: enquanto a rotina de shows permanecia distante, Caio continuava trabalhando com som, buscando soluções criativas e desenvolvendo repertório próprio.

Close de Caio usando casaco preto e óculos

Uma assinatura sem gênero obrigatório

Em 2026, Earstrip volta a ser conduzido por Caio como projeto solo. Ele descreve as produções recentes menos por uma etiqueta única e mais por escolhas de ritmo, groove e personalidade. Em Old School is Better (collab com RUSHÖ), Class Time e Bunda Shake, identifica uma base de tech house atravessada por elementos de electro e linhas de baixo com desenhos particulares. São faixas distintas, ligadas pela atenção ao movimento que nasce do grave.

Gangsta, Baby e Kick Drum Heavy seguem outra direção. Caio cita a sonoridade de Max Styler e a vertente que passou a ser chamada de Indie Tech, categoria lançada pelo Beatport em setembro de 2026 (abre em nova aba). O rótulo ajuda a localizar uma influência contemporânea; não representa classificação comercial oficial das faixas. Já Into the Noise, colaboração preparada com Jesus Luz, se aproxima do progressive house.

Essa liberdade não surgiu do nada. Em entrevista publicada em 2019 (abre em nova aba), o projeto já defendia transitar entre gêneros. O desafio atual, segundo Caio, é encontrar identidade em cada produção sem repetir simplesmente o som que esteja em alta.

Old School is Better mostra essa intenção em outra chave. A letra ironiza o confronto entre hábitos antigos e novos de ouvir música, brinca com playlists e algoritmos e transforma nostalgia em humor de pista. Passado e presente entram na mesma faixa, sem que um precise expulsar o outro. Até outubro de 2026, as músicas novas citadas seguem inéditas comercialmente; prévias de Old School is Better e Into the Noise foram compartilhadas nos canais da gravadora.

Earstrip & Rushö - Old School Is BetterAbrir no SoundCloud (abre em nova aba)

O que ainda chama de volta

Caio é também cofundador da 4Ü Music Lab, gravadora brasileira que prepara os primeiros lançamentos de seu catálogo. Agora, suas decisões envolvem não só fazer música, mas também escolher como apresentá-la e colocá-la em circulação. Essa operação ainda está em construção, assim como a nova fase do artista.

O palco continua como referência. Caio cita o HARD Day of the Dead, em Los Angeles, entre as experiências que mais o marcaram. Pelo Universo Paralello, guarda um afeto diferente: fala da paisagem, da atmosfera de paz e do encontro de culturas que associa ao festival. Voltar a tocar lá é um desejo do artista. Depois de anos em que o som encontrou outros lugares para existir, o retorno do Earstrip tem um destino bastante concreto: a pista.